Ao aproximar falsamente os filmes da
realidade, o som dá ao cinema parte da sua
dramaticidade
Assistir a um filme sem efeitos sonoros seria abrir mão de uma
parte essencial da experiência cinematográfica. Não apenas por uma
questão tecnológica - já na era do cinema mudo usava-se som ao vivo
ou músicos ao vivo para auxiliar a história -, mas também pela
dramaticidade. Por exemplo, se acompanhada do barulho certo, a
imagem de uma porta se fechando pode indicar o estado emocional da
pessoa que a fechou.
Existe uma relação direta entre as técnicas e tecnologias
disponíveis para representar o mundo no cinema e a visão que um
cineasta buscará retratar com essas técnicas. Durante o processo de
desenvolvimento de um filme, diretores e seus sonoplastas escolhem
como usar o som criativamente para melhor contar suas histórias e
amplificar a experiência proporcionada pelas imagens na tela.
Durante o processo de desenvolvimento de Star Wars, o designer
de som Ben Burtt optou por uma abordagem dramática e emocional de
efeitos sonoros, ao invés do realismo. Por ter estudado Física na
faculdade, Burtt preocupou-se em discutir com George Lucas se o
espaço de Star Wars seria representado de forma literal, como em
2001: Uma Odisséia no Espaço (1968). Uma vez que o som é composto
de ondas e estas precisam de um meio - o ar - para se propagar, no
espaço não há som, conceito científico ao qual o filme de Stanley
Kubrick mantém-se fiel. Este não é o caso de Star Wars, que viola
as leis da física ao mostrar o espaço com sons de explosões e
motores de naves, entre outros.
"Eu sempre considero o aspecto literal porque, no fim das
contas, você está tentando convencer a plateia de uma certa
verdade. Você está tentando convencê-los de que o som desse objeto,
veículo ou arma é real dentro do filme. (...) Mas concordamos em
fazer o que seria melhor emocionalmente. Lucas vendeu a ideia
dizendo que a trilha sonora não tem explicação plausível, portanto
o som no espaço também não precisaria... e decidimos que
colocaríamos os sons que precisássemos em nome do impacto
dramático. Então deixamos de lado as ideias da Física e decidimos
usar som no espaço, que foi muito mais divertido", declarou Burtt
ao FilmSound.
No aspecto prático, criar efeitos sonoros consiste em dissociar
um som de seu emissor, que vemos na imagem, para reassociar este
emissor a outros sons, mais marcantes. Isso acontece por uma
variedade de motivos, como conveniência (o som de pisadas em galhos
de milho ficam melhor, sonoramente, do que o barulho de passos
reais na neve); necessidade (muitas vezes, por motivos de
segurança, usa-se vidro falso e outros objetos cenográficos que não
fazem o mesmo som que um objeto real); até motivos éticos, já que
esmagar uma melancia é muito mais aceitável de que quebrar de
verdade a cabeça de uma pessoa. Assim, apesar de empregados com a
intenção de aproximar um filme da realidade, os efeitos sonoros são
mais um dos artifícios de que o cinema dispõe para iludir.
O designer de som Walter Murch, colaborador frequente de Francis
Ford Coppola e premiado com Oscars por Apocalipse Now (1979) e O
Paciente Inglês (1996), acredita que os efeitos sonoros devam
construir uma tensão entre o que está na tela do cinema e o que é
insinuado na imaginação do espectador. "O perigo do cinema atual é
que ele pode sufocar sua plateia pela própria capacidade de
representar o mundo real, pois não possui as válvulas de
ambiguidade que a pintura, literatura, rádio e o cinema mudo
possuem automaticamente por serem incompletos. Isso engaja a
imaginação do espectador para compensar o que é insinuado pelo
artista. A responsabilidade dos cineastas é encontrar meios, dentro
dessas ferramentas completas, de não atingir a completude", defende
Murch em seu artigo do livro Projections 4: Film-makers on
Film-making.
Murch usa como exemplo a sequência de abertura de Apocalipse
Now, em que o quarto de hotel do capitão Willard se enche de sons
das florestas do Vietnã, que não estão em nenhum lugar próximo ao
quarto real. Essa disparidade entre som e imagem é solucionada
quando, com o auxílio de nossa imaginação, compreendemos que
aqueles sons da floresta estão na mente de Willard. Assim, com
espaço para completar as peças de um filme, o espectador será
recompensado com uma experiência mais rica.
No entanto, apesar da grande importância da relação entre som e
imagem em movimento, talvez um dos maiores méritos de um
profissional do som é entender também quando silenciar - escolha
que Murch aplica no final do terceiro filme da série O Poderoso
Chefão, criando tensão no momento de dor do protagonista ao separar
a imagem daquilo que esperávamos ouvir. A tensão da dor só é
aliviada quando o silêncio - e a trilogia - chegam ao fim.
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